Daniele Orzechowski encontrou na tecnologia um novo rumo profissional e levou sua trajetória até uma experiência acadêmica de destaque na China.

Há decisões que mudam uma carreira. Outras transformam também a maneira como uma pessoa enxerga a própria história. Para Daniele Orzechowski, egressa de Engenharia Civil e Engenharia de Software da Católica de Santa Catarina, escolher um novo caminho profissional significou entender que recomeçar não era abandonar tudo o que já havia construído.

Hoje, ela atua com desenvolvimento de software, cursa mestrado em Ciências da Computação com pesquisa em Inteligência Artificial e já vivenciou uma experiência acadêmica internacional na China. O percurso, porém, foi construído aos poucos, entre uma primeira graduação, o mercado de trabalho, uma mudança de carreira e a disposição para continuar aprendendo.

O interesse pela tecnologia existia desde cedo. Daniele gostava de explorar computadores, criar pequenos códigos em HTML e descobrir como as páginas da internet funcionavam. Também era próxima do universo dos jogos, o que alimentava a curiosidade sobre a tecnologia existente por trás deles. Ainda assim, sua primeira escolha profissional foi a Engenharia Civil.

Foi durante a pandemia que aquela curiosidade antiga voltou a ganhar espaço. Ao retomar os estudos em computação e conhecer melhor as possibilidades da área, percebeu que a tecnologia continuava fazendo parte do futuro que imaginava para si.

A decisão não aconteceu de uma hora para outra. Ela foi amadurecendo à medida que Daniele compreendia que poderia construir uma nova trajetória sem negar a anterior.

“A Engenharia Civil fazia parte da minha história, mas não precisava determinar todo o meu futuro.”

Recomeçar sem deixar a própria história para trás

A Católica SC esteve presente nos dois momentos da formação de Daniele. Primeiro, na Engenharia Civil. Depois, quando decidiu voltar à graduação para cursar Engenharia de Software.

Embora sejam áreas diferentes, ela reconhece nas duas experiências um aspecto comum: uma formação conectada à realidade profissional e capaz de apresentar aos estudantes diferentes possibilidades de atuação.

Para Daniele, a universidade não precisa oferecer todas as respostas, mas deve proporcionar uma base consistente e, principalmente, desenvolver no estudante a capacidade de continuar aprendendo.

“A universidade oferece uma base, apresenta possibilidades e desenvolve a capacidade de aprender. Cabe ao aluno identificar onde quer chegar e continuar se dedicando para construir esse caminho.”

Nesse processo, as relações construídas na Católica SC tiveram papel importante. Mais do que conteúdos específicos, Daniele destaca conversas e orientações de professores que ajudaram a ampliar sua percepção sobre o futuro.

Foi com o professor Manfred, por exemplo, que teve contato com programação logo no início do curso e começou a perceber que a união entre sua experiência na Engenharia Civil, o inglês e a computação poderia abrir novas possibilidades, inclusive internacionais.

As disciplinas de frontend ministradas pela professora Tassiana aproximaram Daniele das interfaces e da experiência do usuário e contribuíram para que conquistasse seu primeiro estágio na tecnologia. Mais tarde, durante o Trabalho de Conclusão de Curso, o professor Luiz Almeida a incentivou a considerar a pesquisa e o mestrado como possibilidades concretas de continuidade acadêmica.

“Ter essas pessoas como referências e como mentores foi fundamental para que eu conseguisse enxergar possibilidades que talvez sozinha eu não tivesse percebido.”

A primeira formação, por sua vez, nunca deixou de acompanhá-la. A rotina da Engenharia Civil havia desenvolvido competências como organização, planejamento, pensamento crítico, tomada de decisão e trabalho em equipe. Habilidades que hoje aparecem novamente no desenvolvimento de software e na pesquisa.

Mudar de área, portanto, não significou começar do zero.

Entre o esforço da transição e uma oportunidade internacional

Transformar a decisão em uma nova carreira exigiu persistência.

Quando conseguiu o primeiro estágio em tecnologia, Daniele ainda precisava trabalhar com projetos de Engenharia Civil para manter suas despesas. Durante um período, conciliou seis horas diárias de estágio, atividades na profissão anterior e as aulas noturnas da graduação em Engenharia de Software.

Foi uma rotina intensa, mas também um momento determinante.

“Foi quando percebi que realmente estava disposta a fazer aquela mudança acontecer.”

A transição se consolidou quando recebeu o convite para trabalhar como desenvolvedora júnior. Inserida definitivamente no ambiente da tecnologia e convivendo com profissionais também ligados à pesquisa, começou a enxergar um futuro que ia além da mudança de profissão.

“Eu lembro de pensar: ‘Eu também quero isso. E eu sei que consigo chegar lá se me dedicar’.”

A dedicação abriu novos caminhos. Daniele passou a aprofundar os estudos em Inteligência Artificial e ingressou no mestrado em Ciências da Computação. Mais tarde, foi selecionada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) para participar de um programa acadêmico na Beihang University, na China.

A notícia trouxe, inicialmente, ansiedade. Estar em outro país significava enfrentar uma cultura, uma língua e um ambiente acadêmico diferentes. Logo, porém, a insegurança deu lugar à vontade de aproveitar cada oportunidade.

Na universidade chinesa, Daniele conheceu laboratórios, professores, pesquisadores e diferentes aplicações da Inteligência Artificial. Durante o programa, recebeu o título de Outstanding Participant, reconhecimento concedido pelo Departamento de Relações Internacionais da Beihang pelo desempenho acadêmico e pelo espírito colaborativo demonstrados durante a capacitação.

A experiência também lhe proporcionou acesso prioritário à Silk Road Scholarship, bolsa integral voltada a candidatos interessados na continuidade dos estudos na universidade.

Mais do que uma conquista curricular, a vivência internacional ampliou sua percepção sobre a relação entre pesquisa, empresas e sociedade.

Daniele observou de perto projetos de Inteligência Artificial aplicados à robótica, saúde, indústria e setor aeroespacial, muitos deles construídos a partir de problemas concretos.

“A pesquisa acadêmica é fundamental, mas acredito que também precisamos pensar cada vez mais em como transformar esse conhecimento em soluções que realmente cheguem às pessoas.”

Inteligência Artificial com propósito

Essa perspectiva está diretamente ligada ao trabalho que Daniele desenvolve hoje.

Sua pesquisa de mestrado envolve aplicações de Inteligência Artificial na saúde. Ao lado do orientador e de pesquisadores do laboratório, trabalha no desenvolvimento de estudos e ferramentas que podem contribuir para o apoio ao diagnóstico no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS).

É também esse propósito que ajuda a sustentar uma rotina dividida entre trabalho, pesquisa e formação acadêmica.

Para ela, estudar continuamente tornou-se parte natural da profissão. Em uma área que se transforma rapidamente, reconhecer que não é possível saber tudo é também compreender a necessidade de permanecer aprendendo.

Mas Daniele defende que o avanço tecnológico precisa caminhar acompanhado de responsabilidade.

Em sua visão, a Inteligência Artificial deve funcionar como ferramenta de apoio, e não como substituta do conhecimento humano. Na educação, pode auxiliar o estudante, sem eliminar a necessidade de aprender. Na saúde, pode fornecer informações relevantes, sem ocupar o lugar do profissional responsável por uma decisão.

“A tecnologia deve nos ajudar a pensar melhor, trabalhar melhor e resolver problemas mais complexos, e não fazer com que deixemos de pensar.”

Ao olhar para a jovem que iniciou a graduação em Engenharia Civil e para a profissional que hoje pesquisa Inteligência Artificial e acumula uma experiência acadêmica internacional, Daniele reconhece uma mudança que vai além da carreira: aprendeu a confiar mais nas próprias escolhas.

Foi justamente essa confiança que lhe permitiu compreender que os anos necessários para construir um novo caminho passariam de qualquer maneira.

Por isso, sua mensagem para quem também pensa em mudar de direção nasce da própria experiência.

“Daqui a dez, vinte ou trinta anos, você pode olhar para trás e pensar ‘ainda bem que eu tentei’ ou ficar se perguntando ‘e se eu tivesse tentado?’. Eu prefiro enfrentar o medo de mudar agora do que passar a vida imaginando o que poderia ter acontecido.”