Entenda como a pressão por desempenho e expectativas irreais podem afetar a saúde mental dos estudantes e quando é hora de buscar apoio.
Você abre o grupo da turma e alguém já terminou o trabalho que você ainda nem conseguiu começar. Outro colega acabou de publicar que conquistou um estágio. Tem também aquela pessoa que trabalha, estuda, vai à academia, encontra os amigos e chega à aula com tudo em dia.
Diante dessa sequência, surge uma conclusão desconfortável: parece que todo mundo está conseguindo acompanhar, menos você. As conquistas dos outros podem ser reais. O problema aparece quando uma parte da vida de outra pessoa vira medida para avaliar todo o seu percurso.
Neste Setembro Amarelo, conversei com a psicóloga Larissa Tereza Feretti e com a neuropsicopedagoga institucional Lidiane Soares, profissionais do Serviço de Orientação Universitária (SOU) da Católica SC, para compreender como a comparação e a autocobrança aparecem na vida acadêmica. A conversa aborda situações comuns desse cotidiano, os sinais que merecem atenção e os caminhos de apoio disponíveis.
Por que a comparação parece tão convincente?
Quando você olha para a própria rotina, enxerga o conjunto: as tarefas acumuladas, as dúvidas, o cansaço, as tentativas que deram errado e as responsabilidades que disputam seu tempo. Do colega, geralmente aparecem apenas alguns resultados: a boa nota, o estágio, a participação em sala ou aquilo que ele decidiu compartilhar.
Segundo a psicóloga Larissa Tereza Feretti, comparar realidades que conhecemos em níveis tão diferentes pode levar à conclusão de que estamos atrasados ou fazendo menos do que deveríamos, sem considerar as condições de cada trajetória.
Nas redes sociais, essa seleção fica ainda mais evidente. Uma análise publicada em 2023 na revista científica Media Psychology reuniu 48 estudos experimentais, com 7.679 participantes, para investigar os efeitos da exposição a pessoas percebidas como mais bem-sucedidas. Em comparação com conteúdos neutros, a exposição a esses perfis vistos como mais bem-sucedidos teve, em média, um pequeno efeito negativo sobre a autoavaliação e as emoções dos participantes.
O achado não permite prever como cada pessoa reagirá à comparação. Em algumas situações, ela pode despertar admiração, oferecer referências e ajudar a perceber algo que você gostaria de desenvolver.
Por isso, Larissa propõe substituir “Por que eu não estou conseguindo como ele?” por perguntas que tragam a atenção de volta à própria realidade:
- O que essa situação desperta em mim?
- Existe algo nessa pessoa que eu admiro e gostaria de desenvolver?
- O que é possível para mim neste momento?
Larissa observa que, ao se medir pelo percurso alheio, o estudante pode deixar de reconhecer as dificuldades que superou, as habilidades que desenvolveu e os avanços que pareciam pequenos: “Conseguir enfrentar uma dificuldade, participar mais de uma aula, pedir ajuda ou encontrar uma forma que funcione melhor para estudar também faz parte do processo.”
Quando a cobrança começa a pesar?
Cobrar-se para cumprir um prazo, melhorar o desempenho ou alcançar um objetivo pode ajudar na organização. A cobrança começa a pesar quando descansar provoca culpa, um erro parece inaceitável e nenhuma conquista parece suficiente.
Uma pesquisa publicada em 2020 na revista Psychological Assessment reuniu 67 estudos sobre perfeccionismo e indicadores acadêmicos. No conjunto dos estudos, padrões elevados apareceram associados a alguns indicadores favoráveis. Já as preocupações perfeccionistas — marcadas por dúvidas constantes, medo de errar e insatisfação com o resultado alcançado — apresentaram associações com estresse acadêmico, ansiedade diante de avaliações, procrastinação e esgotamento.
Nos acolhimentos do SOU, Larissa observa como essa diferença aparece na relação do estudante com os próprios limites. Uma cobrança que ajuda a organizar a rotina permite reconhecer que nem sempre será possível dar conta de tudo. Já a cobrança excessiva reduz o espaço para o erro, o descanso e o reconhecimento do que já foi construído.
Entre os sinais apontados pela psicóloga estão:
- preocupação constante com o desempenho e sensação de nunca fazer o suficiente;
- medo excessivo de errar e necessidade de que tudo esteja perfeito;
- dificuldade de descansar sem culpa;
- procrastinação acompanhada de ansiedade ou dificuldade de concentração;
- irritabilidade e alterações no sono ou na alimentação;
- redução dos momentos de lazer e convivência.
Uma semana difícil, uma prova que não saiu como esperado ou uma queda pontual no rendimento não indicam, isoladamente, um problema de saúde mental. Segundo Larissa, o que merece atenção é a frequência, a intensidade e o impacto desses sinais na rotina.
Você não precisa acompanhar o percurso de outra pessoa
Nos atendimentos do SOU, Lidiane observa que cada estudante traz uma história, um repertório de conhecimentos, experiências de vida, formas de aprender e desafios pessoais diferentes. Jornada de trabalho, condições socioeconômicas, responsabilidades familiares, saúde mental e características neurodivergentes também podem afetar o tempo disponível, a organização e a experiência acadêmica.
Por isso, acompanhar o ritmo de um colega não oferece uma medida confiável do próprio desenvolvimento.
Ela explica que alguns estudantes precisam de mais tempo para processar informações, adaptar-se à rotina acadêmica, organizar tarefas ou desenvolver estratégias de estudo. “Isso não significa menor capacidade ou menor potencial de aprendizagem. Significa apenas que o caminho para aprender pode ser diferente”, afirma.
Para Lidiane, reconhecer essas diferenças também envolve pensar em equidade: “Na educação inclusiva, entendemos que equidade não é exigir que todos percorram o mesmo caminho, mas garantir que cada estudante tenha as condições necessárias para alcançar seu potencial.”
A neuropsicopedagoga propõe que o estudante observe o próprio progresso, em vez de usar a velocidade do colega como referência:
- Estou compreendendo assuntos que antes pareciam difíceis?
- Desenvolvi alguma habilidade neste semestre?
- Encontrei alguma estratégia de estudo que funciona melhor para mim?
- Minha organização atual é compatível com as responsabilidades que tenho?
E se a sua forma de estudar não estiver funcionando?
Quando os resultados esperados não aparecem, é fácil associar a dificuldade à falta de capacidade. Lidiane lembra que revisar a rotina e as estratégias faz parte do processo de aprendizagem. Ela sugere começar por perguntas concretas: você está conseguindo se concentrar? Está estudando de forma ativa ou apenas lendo e relendo o conteúdo? Sua rotina está equilibrada entre estudos, descanso e outras responsabilidades?
As respostas podem indicar ajustes, como dividir uma atividade extensa em etapas menores, estabelecer um cronograma viável, usar revisão espaçada ou explicar o conteúdo para outra pessoa. Resumos e mapas mentais também podem ser testados quando ajudarem a organizar e relacionar as informações.
“Se uma estratégia não está funcionando, isso não significa que o acadêmico não seja capaz. Significa apenas que ele ainda não encontrou a forma de aprender que funciona melhor para ele”, explica Lidiane. Ela também recomenda considerar o sono, a alimentação e a saúde emocional, fatores que influenciam diretamente a aprendizagem.
Se as dificuldades persistirem, o estudante pode procurar professores, colegas, a coordenação do curso ou o SOU para identificar barreiras e construir estratégias mais adequadas às suas necessidades.
Quando vale conversar com alguém?
Muita gente adia a procura por apoio porque acredita que deveria conseguir resolver tudo sozinha ou porque não considera o que está vivendo “importante o suficiente”.
Uma revisão sistemática publicada na edição de 2024 do Journal of American College Health analisou dez estudos com estudantes do ensino superior que apresentavam depressão ou ansiedade. A preferência por resolver os problemas sem ajuda, o estigma e a dificuldade de reconhecer sinais de sofrimento ou conhecer os serviços disponíveis estavam entre as barreiras mais frequentes.
Você não precisa chegar a uma explicação pronta ou saber definir exatamente o que está sentindo antes de conversar. Como explica Larissa, “o próprio espaço de escuta pode ajudá-lo a organizar essas questões e compreender melhor o que está acontecendo”.
A psicóloga também aponta mudanças persistentes na convivência e a perda de interesse por atividades que antes faziam sentido. Lidiane, por sua vez, acrescenta o cansaço constante, a ansiedade frequente e a sensação de sobrecarga. Esses sinais isolados não funcionam como diagnóstico, mas, quando se repetem, ocupam muito espaço no dia a dia ou interferem na rotina, conversar com alguém já é um motivo válido.
Onde encontrar apoio
“O SOU é um espaço para o estudante não precisar enfrentar tudo sozinho”, explica Larissa. O serviço oferece acolhimento e orientação para questões relacionadas à aprendizagem, à organização dos estudos, à adaptação à vida acadêmica e ao bem-estar. A partir da escuta, as profissionais podem compreender a demanda e pensar com o estudante em estratégias para lidar com a situação.
Larissa observa que muitos estudantes chegam ao SOU acreditando que só deveriam procurar o serviço diante de uma dificuldade muito grande. Se uma questão já afeta o bem-estar, a rotina ou a experiência acadêmica, o estudante pode buscar acolhimento. Para Lidiane, o momento de procurar o SOU é quando algo começa a dificultar o desenvolvimento acadêmico ou a permanência no ensino superior. Não é preciso esperar que a rotina esteja completamente comprometida.
Os atendimentos acontecem em ambiente próprio, com privacidade, e o agendamento é realizado por e-mail:
- Joinville: sou.joi@catolicasc.org.br
- Jaraguá do Sul: sou@catolicasc.org.br
Para apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em caso de tentativa de suicídio em curso ou risco imediato, o Ministério da Saúde orienta ligar para o SAMU pelo número 192 ou procurar uma UPA, um pronto-socorro ou um hospital.
